segunda-feira, 30 de junho de 2008

Um pouco de meio ambiente

Não existe nada mais fascinante no jornalismo do que ir além da mera produção de informações. Filtrar diversas formas de absorção sobre o que se pesquisou, entrevistou, escreveu e aplicá-las no cotidiano e, quem sabe, desenvolver pequenas ou grandes consciências. Essa, com certeza, é uma das dádivas que a profissão me oferece. Digo isso, pois estou preparando uma reportagem sobre um tema do qual todos falam, mas nunca desenvolvi uma opinião detalhada sobre o assunto: meio ambiente. Eis, portanto, a minha chance de reparar esse erro e exemplificar com fatos como estou fazendo a minha parte.

A reportagem em questão envolve a produção de petróleo e seu uso desordenado como combustível fóssil que influenciou as mudanças climáticas e o aquecimento global que presenciamos, entre outras consequências. Ela vai estar estampada nas páginas da Revista da ADB (Associação dos Diplomatas Brasileiros) uma secretaria de estado vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. Para mim, a melhor revista produzida pela agência. A temática apresentada em suas pautas nunca é simples e demanda muita pesquisa, leitura atenta, especialmente às deliciosas contradições em que certos posicionamentos ideológicos se sustentam. E o meio ambiente é um ótimo celeiro de contradições, ainda mais quando envolvem questões políticas e econômicas e, nesse caso, diplomáticas.

Para início de conversa, o meio ambiente como o conhecemos hoje não envolve somente a preservação de florestas (tema que vou enfocar logo mais). Está, atualmente, disseminado em quase todos os escalões do comportamento e conhecimento humanos: geração de empregos, produção de energia, alimentação, tecnologia, consumo, exclusão social, moda, educação, cultura, políticas públicas, economia, relações internacionais, esportes. Tudo o que se produz nesses campos citados vai ter, de alguma forma, um impacto minimamente ambiental em nosso modo de vida.

O tema se tornou tão abrangente que até os meios de comunicação estão massificando a importância em se discutí-lo. Várias publicações impressas têm preparado suplementos especiais e cadernos específicos. A internet, então, nem se fala. Diversos sites (os meus favoritos estão disponibilizados logo abaixo) que surgiram na grande rede são editados por jornalistas que se especializaram na área, além de ter os seus conteúdos alimentados por artigos e estudos desenvolvidos por inúmeros especialistas. Aliás, profissionais como biólogos, ambientalistas e cientistas nunca estiveram tão em moda.

Para se ter uma idéia do quão alarmantes são os questionamentos sobre meio ambiente e como eles se apresentam para a coletividade, o mundo esteve seriamente atento ao perfil do novo ministro do meio ambiente, Carlos Minc. Além de exercer um papel fundamental como um dos gestores políticos da Amazônia, suas considerações acerca dos índices de desmatamento da floresta, da implementação de incentivos à produção de biocombustíveis, em especial o etanol à base de cana-de-açúcar (da qual comentários pertinentes direcionam o país como uma potência industrial na área dentro em breve), entre outras considerações à pasta, ecoaram pelos quatro cantos do globo e serviram de matéria-prima para a interpretação de centenas de analistas de diversas áreas.

Ainda que a imprensa o qualifique como fanfarrão e espalhafatoso, o ex-secretário estadual de meio ambiente do Rio de Janeiro tem um histórico bastante atuante em sua gestão. É dele, por exemplo, a iniciativa de se assinar convênios com a prefeitura de Niterói e a fundação Santa Cabrini (uma entidade assistencial) para aproveitar a mão-de-obra de presos com bom comportamento em trabalhos de reflorestamento de encostas, proporcionando-lhes renda honesta e ressociabilização. Um projeto que poderia ser estendido para todo o país.

Entretanto, uma dor de cabeça que ainda vai se notabilizar na têmpora de Minc e de outras pastas ministeriais, como a da Justiça e do Trabalho, diz respeito a essa dicotomia trabalho/desenvolvimento econômico via biocombustíveis: os bóias-frias. Se mecanizar as lavouras de cana para a produção do etanol, haverá milhares de desempregados. Se o governo os mantiver, uma série de violações humanitárias e trabalhistas terão de ser revistas. Ninguém hoje em dia quer ser comparado à China nesses quesitos. Mas isso é uma outra história.

Voltando à reportagem. Escrevo essas palavras e ela ainda está no início. Tempo suficiente para se descobrir que num passado não muito distante, nos rebeldes anos 70,foi elaborado um dos primeiros grandes estudos sobre meio ambiente, ironicamente instituído por um industrial italiano que reuniu outras lideranças empresariais interessadas em se discutir o futuro da civilização humana. Esse conglomerado de personas tão influentes ficaria conhecido posteriormente como o Clube de Roma. Em 1972, o Clube subsidiou o patrocínio de um batalhão de pesquisadores vindos do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Esse trabalho em conjunto, que durou cerca de dois anos, resultou no mais detalhado relatório sobre os problemas mundiais de então que originariam o livro Limits of Grow (Os Limites do Crescimento em inglês), uma espécie de pai do Protocolo de Kyoto, que vendeu mais de 30 milhões de cópias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre ambiente mais vendido da história. Pela primeira vez questões como industrialização acelerada, rápido crescimento demográfico, escassez de alimentos, esgotamento de recursos não renováveis, entre outras, que antes eram debatidos somente dentro dos círculos acadêmicos foram levados a quem mais interessava: o resto da humanidade.

De lá pra cá muita coisa mudou. Hábitos, conceitos e comportamentos precisaram ser mudados. O que antes era a solução, transformou-se em vilão, a exemplo do plástico. Para salvar o planeta, precisou-se convencer os empresários de que investir em meio ambiente pode ser um excelente negócio.A Amazônia, que deveria ser um eterno santuário imaculado, tem a sua preservação repensada de forma que possamos “crescer com sustentabilidade”. Essa discussão surgiu graças à uma matéria bombástica da revista The Economist, no início de junho, que nutria uma teoria polêmica sobre a internacionalização da Amazônia.

Em princípio, (antes de mais nada, a teoria não é da revista e, sim, de um lobby internacional defendido por ela) o Brasil não poderia, sozinho, administrar a preservação da floresta devido a frouxidão de sua política interna que não impede, por exemplo, o crescimento da expansão pecuária e da grilagem de terra. O governo rebate dizendo que cria áreas de conservação. Elas foram amplamente desmitificadas em um esclarecedor artigo escrito pelo jornalista Ricardo Kotscho, em sua coluna no IG, que dentre outros petardos afirma que “tudo muito bem, tudo muito bonito, mas quem vai fiscalizar estas unidades de conservação, se as atuais tropas do Incra e do Ibama já não dão conta de cuidar das dezenas de áreas igualmente já protegidas por decreto?”

Ao meu ver e, finalmente, para fechar esse gigantesco post, digo que é preciso se criar um programa em que haja uma exploração consciente da Amazônia, de forma que se priorize, entre outras questões, o sustento de quase 20 milhões de pessoas que habitam a região. A preservação pela preservação me parece um argumento purista demais para ser sustentado quando se depara com as centenas de possibilidades, principalmente no que concerne a avanços científicos na medicina, que a floresta pode proporcionar. O que já se devastou é praticamente impossível de reverter, mas nem por isso defendo aqui a institucionalização das queimadas. Mas é evidente que a simples fiscalização pelos órgãos governamentais brasileiros é extremamente falha e corrupta, gerando, por meios escusos, a degradação ecológica que tanto se quer evitar.

Internacionalizar também é um argumento um tanto perigoso de se defender, já que se for lotear uma gleba de terra para os EUA, por exemplo, que garantias teremos que haja um compartilhamento de benefícios para todos? Somente pelo fato deles deterem uma tecnologia superior a nossa e subsidiarmos a matéria-prima?
Por enquanto, é melhor continuarmos tecendo as nossas ações individuais. Comece, lendo alguns dos sites que recomendo e se informando. Você recicla lixo? Poupa energia elétrica e água? Prioriza meios não poluentes de transporte? Ótimo. Você já está na onda.

Artigos, estudos, legislação, eventos, etc.

Ambiente Brasil
WWF
Para se informar sobre reciclagem
Reportagens

domingo, 15 de junho de 2008

Vítima da circunstância



Semana passada tive de assistir a um seminário sobre trânsito para ajudar no desenvolvimento de um projeto de assessoria de imprensa para um novo cliente da agência. O evento era muito bem-vindo, já que reuniria quase duas dezenas de especialistas entre engenheiros de tráfego, autoridades de órgãos federais de trânsito, policiais rodoviários e jornalistas que costumam cobrir a área. Todos dispostos a discutir o presente e o futuro dos meios de transporte público no DF que estão em vias de entrar em colapso.

Fui, então, ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães para fazer a inscrição e me credenciar. Finda essa tarefa, solicitei um táxi por telefone para me levar de volta ao trabalho que fica na Asa Norte. A mocinha que agenda os clientes perguntou, do outro lado da linha, se eu estava próximo “às bolas coloridas”. Como tinha informado com precisão o local onde estava, respondi que não tinha visto nenhuma bola colorida, mas que estaria perto delas para que a referência utilizada facilitasse a minha localização e, enfim, o motorista me pegasse.

Comecei a ficar preocupado quando depois de perguntar para 3 pessoas, escutar respostas negativas sobre a existência dessas tais “bolas coloridas”. Um segurança ainda me orientou a verificar se elas não estavam do outro lado do pavilhão. Liguei de novo e expliquei a confusão:

Moça: Mas qual o número que o senhor disse?
Eu: 3349...
Moça: Onde o senhor disse que estava?
Eu: No Centro de Convenções Ulysses Guimarães, mas não tem nenhuma bola colorida por aqui.
(silêncio no outro lado da linha)
Eu: Alô?
Moça: Senhor, o táxi foi mandado para o Memorial JK. (detalhe: Uns 2,5km de onde estava)
Eu: Sim, mas eu disse a você que estava no Centro de Convenções Ulysses Guimarães... (comecei a respirar fundo)
Moça: Eu vou estar mandando um outro táxi para o senhor. Aonde o senhor se encontra?
Eu: Estou no estacionamento
Moça: Mas ele fica em qual lado?
Eu: Eu acho que fica atrás do Centro.
Moça: Atrás como, senhor?
Eu: (já começando a contar até 74) Querida, tem um monte de carro parado aqui atrás. Já viu estacionamento com carros em movimento? Só os que estão saindo dele. Portanto, deve ser aqui que se localiza o estacionamento.
Moça: ...er...senhor. O senhor pode dar uma descrição do senhor para que o motorista pudesse estar localizando (sic) o senhor?
(após dar a discrição completa de como estava vestido, ainda emendei:)
Eu: Também tenho uma pinta no dedo mindinho da mão esquerda, se isso ajudar.
Moça: Já estou mandado senhor. Tenha um bom dia.

Pensa que acabou?

Quinze minutos se passaram e nada do táxi. A moça havia dito que ele chegaria em 5. Liguei de novo:

Eu: Liguei há pouco pedindo um táxi aqui para o Centro de Convenções...
Moça:...Mas eu já mandei um Siena prata te buscar. Ele ainda não veio?
Eu: Não...você pode me mandar outro?
Moça: Posso. Qual é o número que o senhor disse mesmo?
Eu: 3349...
Moça: Vai estar aí em 10 minutos
Eu: Foi o que você disse da última vez.
Moça: Tenha um bom dia...


Pensa que acabou?

O táxi novamente não veio no tempo previsto e confesso que estava pensando em pegar um ônibus (esqueci de mencionar que a agência tem um convênio através de vausher e eu não tinha dinheiro o suficiente para pegar outro e tampouco existia um banco nas proximidades.)Um outro taxista que estava ali por perto veio conversar comigo:

Taxista: Eu estou percebendo o seu drama. Por que você não diz que está indo para o Aeroporto?
Eu: Como assim?
Taxista: Se você disser isso, eles vêm rapidinho. Faz isso!
Eu: O que eu tenho a perder, né?

Liguei e solicitei o táxi. Disse que estava a caminho do aeroporto. Informei ainda que estava com pressa, pois estava "em cima da hora para pegar o meu vôo":

Moça: Você é o senhor que está no Centro de Convenções, né?
Eu: Sou
Moça: Ele já vai estar chegando aí em 5 minutos
Eu: Tá...

Em menos de 5 minutos aparece um táxi. Às pressas. Mal o veículo estaciona e o motorista põe a cabeça pra fora.

Taxista: Você que é o Fabio?
Eu: Sim, o próprio.
Taxista: Você está indo para o aeroporto?
Eu: Não.Estou indo para a Asa Norte. A moça deve ter se enganado...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O arraiarrr da federarrr

Esse ano promete. A Igreja de Santa Cruz que fica na 904 Sul, ali na W5, vai ter uma barraquinha especial para as festividades juninas que se aproximam. Diversos artigos apreendidos pela Receita Federal em várias operações foram doados para a paróquia e serão rifados. O burburinho é geral, mas o pároco José Ailton não revela nem sob tortura o que será vendido.

- Vão ter que ir lá pra conferir.- diz.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Quem não se comunica...

Nada como estar imerso na cultura de sua nova cidade. Às vésperas de completar um ano aqui, percebi que Brasília tem a sua babel de gírias, advindas de lugares como Minas e Bahia .Mas o que se pode constatar é que a maioria delas é uma adaptação de tantos outros regionalismos incorporados à Capital Federal. São poucas e talvez não traduzam a sua totalidade, mas as expressões abaixo são as mais usadas por aqui. Elas foram devidamente acompanhadas de suas respectivas “traduções” para o carioquês.

Divirtam-se

De boa: Resposta geralmente associada à uma satisfação dada.
Exemplo:“-Desculpa ter chegado atrasado à sua festa”.
“-Que isso, cara! De boa!”
No Rio: “Numa boa, tranqüilo”

No sal ou no prego – Numa situação difícil, numa enrrascada. Exemplo: “Meu carro quebrou numa rua deserta e escura. Fiquei no prego!” No Rio: “na merda, no perrengue”

Oreia seca: Pessoa nascida com situação econômica desfavorável, com pouco dinheiro. A expressão nasceu com os operários da construção civil, os candangos, que construíram Brasília devido às horas de exposição ao sol e ao clima seco da região.

Boto fé: Resposta para alguma informação positiva fornecida pelo interlocutor.
Exemplo: “Tô afim de estudar para concurso público”.
“Pô, boto fé”
No Rio: Pô, manero!

Carai, véi: Interjeição usada para quase todos os tipos de sentimentos. De espanto à satisfação. Exemplos: “Carai, véi! Aquela mulher é muito gostosa”. “Carai, véi! Passei no vestibular!” “Carai, véi! Meu pai morreu!”

Velho – Forma como qualquer interlocutor que você conheça, e que tenha entre 12 e 35 anos, vai se referir a você. Exemplo: “Velho, você deveria fazer exercícios físicos. Vai andar no Parque da Cidade”. No Rio: “cara”

Massa – Também falado na Bahia. Significa aprovação de alguma coisa. Exemplos: “Fulano é massa”. “Aquele show foi massa”. No Rio: “bacana”, “legal”

Nunca no Brasil/nunca precisei - Seria o equivalente ao “fala sério” quando alguém se vê diante de uma situação absurda ou constrangedora. Exemplo: “Nunca precisei ir ao motel com ele”. Atenção: expressão geralmente utilizada mais por mulheres ou gays.

Pense – Serve para reforçar uma observação feita acerca de um assunto positivo ou negativo. Exemplos: “Ontem comprei o meu carro. Pense numa pessoa feliz!” “Amanhã vou construir um muro sozinho. Pense numa pessoa cansada depois”.


Meu – Assim como em São Paulo, também se fala por aqui. Dispensa maiores explicações.

Esse trem – É a velha expressão mineira que equivale “a esse troço”, “essa coisa”.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Lei sucinta

Nessa semana,13 de maio,completou-se 120 anos da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. O blog do Juca Kfouri, em função da data, traz uma informação supreendente. Ia morrer sem saber que a legislação abolicionista tem apenas DOIS ARTIGOS. A saber:

Art. 1º - É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º - Revogam-se as disposições em contrário.

Isso explica muita coisa.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Exclusivo: Marcelo Itagiba e a maioridade penal



Uma questão polêmica amplamente discutida ano passado foi a recente proposta de reclassificar a maioridade penal para 16 anos e de que forma essa alteração na lei poderia modificar a implementação das medidas socioeducativas. O fio condutor desse debate foi o bárbaro assassinato do menino João Hélio Fernandes, de apenas 6 anos, em fevereiro de 2007, no Rio de Janeiro, após abordagem feita por um grupo de assaltantes (entre eles havia menores de idade) que roubaram o carro onde estava. Na fuga dos ladrões, João foi arrastado até a morte por ter ficado preso ao cinto de segurança do lado de fora do veículo.

A comoção nacional causada pela tragédia fez com que fossem desenterradas 15 propostas de emendas constitucionais, algumas delas dormitando no Congresso nacional há 10 anos, responsabilizando criminalmente jovens a partir dos 16 anos. O relator do projeto, o ex-secretário de Segurança Pública e atual deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ) disse, em entrevista que será vinculada à Revista do MPDFT, que o relatório final foi enviado à Comissão de Constituição e Justiça em dezembro do ano passado, mas ainda não foi votado para que seja submetido ao plenário da Casa.

Leia a íntegra da conversa.

Que desdobramentos aconteceram depois das apresentações de 15 propostas de emenda constitucional para a redução da maioridade penal para 16 anos? Depois da comoção popular por causa da morte do menino João Hélio, o assunto não foi mais discutido.

Marcelo Itagiba – Após fazer um profundo estudo e analisar a constitucionalidade de 15 propostas que tramitavam na Câmara Federal, algumas delas havia mais de dez anos, com o objetivo de reduzir a idade de ingresso na maioridade penal, apresentei o relatório, em dezembro de 2007, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, com parecer favorável ao estabelecimento da idade penal aos 16 anos. O relatório ainda não foi votado na CCJ, para que seja submetido ao plenário da Câmara. O meu relatório foi produzido após realizar um estudo comparado de todos os Códigos Penais que já vigoraram no Brasil, e em outros países, e analisar as opiniões divergentes dos juristas. A maioridade penal no período do Império era aos 14 anos. Alguns juristas têm a opinião de que a maioridade aos 18 anos é cláusula pétrea da Constituição Federal. Porém, considero, e nisso tenho o respaldo de outros juristas, de que pétreo poderia ser o estabelecimento da maioridade penal, mas não o marco discricionário da idade.

O senhor chegou a afirmar que a definição de maioridade penal aos 18 anos nos tempos atuais era equivocada, pois mudou-se a avaliação do comportamento dos jovens nos últimos 30, 40 anos. Que tipo de comportamento é esse que estimula tais mudanças na legislação?

Marcelo Itagiba – O jovem de 16 anos de hoje não é o mesmo jovem que tinha 16 anos na década de 40, quando foi sancionado o Código Penal ainda em vigor. Hoje ele tem acesso a um volume enorme de informações, por meio de jornais, rádios, TVs e internet, que lhe dão o conhecimento e a formação necessários para ser considerado maturo o suficiente para ser responsabilizado criminalmente por seus atos. Não é admissível que um jovem de 16 anos cometa um assassinato e cumpra, no máximo, somente três anos de medida sócio-educativa. Ele deve receber as penas previstas no Código Penal e cumpri-las integralmente, uma parte em unidades destinadas àqueles que tenham até 21 anos, e o restante, em presídios. A idade penal aos 18 anos não pode ser tratada como um dogma. A maioridade civil, por exemplo, que já foi aos 21 anos, hoje se dá aos 18 anos, e com a possibilidade de emancipação aos 16, segundo o novo Código Civil, que entrou em vigor há poucos anos. Ou seja, o novo Código Civil se adaptou aos novos tempos, e, com isso, o jovem de 18 ou 16, se tiver sido emancipado, pode abrir uma empresa e responde por todos os seus atos ligados às suas atividades comerciais. Temos que acompanhar essa evolução e fazer o mesmo com o Código Penal, reduzindo de 18 para 16 a idade de ingresso na maioridade penal. Aliás, hoje o jovem de 16 anos já podem eleger o presidente da República, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores.

Especialistas como promotores da infância e juventude afirmam de que não adianta reduzir a idade da responsabilidade criminal dos jovens, pois a tendência é que a criminalidade, em especial o tráfico de drogas, recrute pessoas cada vez mais jovens com 14, 13 anos que ainda não são atingidos por essas mudanças na lei, transformando uma boa intenção em um trabalho de enxugar gelo.

Marcelo Itagiba – Em primeiro lugar, a redução da idade penal para os 16 anos não tem o objetivo de contribuir para a redução da criminalidade. Ela tem por base tão-somente a aplicação do critério do discernimento, pois, como já disse, o jovem de 16 anos de hoje possui maturidade suficiente, ou seja, discernimento, para não ser tratado como inimputável e possa ser devidamente responsabilizado por seus atos. Quanto ao emprego de jovens de 13 e 14 anos pelo tráfico de drogas, isso já é uma triste realidade, conforme se constata ao ler diariamente o noticiário policial. Mas, na minha opinião, conforme o parecer que dei em meu relatório, a idade penal, com base no critério do discernimento, deve passar a vigorar aos 16 anos. Em segundo lugar, a redução da idade penal jamais poderia ser considerada uma tentativa de redução da criminalidade, pelo simples fato de que ela, como nenhuma medida que vise a diminuir a criminalidade, terá resultado se não estiver integrada a outras iniciativas conjuntas que estejam voltadas para a reformulação do sistema repressivo penal brasileiro, para a valorização da atividade policial e o fomento de ações governamentais que garantam dignidade aos cidadãos, como saúde, educação em horário integral, redes de saneamento básico e emprego por meio do crescimento econômico do país, e afastem as pessoas, sobretudo os jovens, da criminalidade.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Eles estão chegando...

Fenômeno que só conhecia no Rio e em outras cidades desprovidas de arquitetura modernista, agora começa a aportar por essas andanças. São ambulantes que vendem balinhas, chicletes e outras guloseimas nos ônibus sempre silenciosos da capital federal. Vindos das cidades satélites, batalham os seus trocados ainda de forma muito tímida, sem a intenção de incomodar os passageiros.

Se tivessem o know-how dos ambulantes cariocas saberiam que a tática do jogo é extamente exibir-se, criar um marketing pessoal, um chamariz que desperte a simpatia de todos ou de alguns pelo menos. É classico, por exemplo, o caso de um vendedor de amendoins que trajava terno e gravata em frente ao Edifício Argentina, em Botafogo.

A indumemtária foi presente de um senhor que era dono de um brechó e, num desses engarrafamentos que infernizam a Rua Farani, disse que com aquelas roupas ele ganharia muito dinheiro.

Bom, não sei se ele ganhou muito dinheiro. O fato é que ele ganhou seus 4 minutos de fama ao ser entrevistado para uma coluna "de gente" do jornal O Globo.